Luiz Carlos CezarAdvogadoOAB/MA 15.573

Orientação jurídica · servidores de Imperatriz

Você passou anos no serviço público sem tirar férias — e sem receber o terço?

Férias não gozadas não desaparecem com o fim do vínculo. O Supremo fixou que o terço constitucional é devido ainda que as férias nunca tenham sido tiradas, e que o direito não usufruído se converte em indenização quando o vínculo se rompe. Em muitos contracheques, a linha do terço simplesmente nunca apareceu.

  • Citações conferidas
  • Franqueza quanto ao prazo
  • Sigilo profissional

A coluna sem lançamento é o ponto de partida da conversa — não a conclusão dela.

A tese, em duas partes

Férias não gozadas, terço não pago

O terço constitucional de férias está no art. 7º, inciso XVII, da Constituição, e o art. 39, § 3º, o estende a quem ocupa cargo público. A norma não distingue entre servidor efetivo e ocupante de cargo em comissão: o que ela tutela é o descanso remunerado de quem trabalha.

Enquanto o vínculo dura, a obrigação do Município é conceder as férias. Rompido o vínculo sem que elas tenham sido gozadas nem pagas, essa prestação se torna impossível — e é aí que se discute a conversão do direito em indenização, para que a Administração não se beneficie da própria omissão.

Conceder férias é ato da Administração, não do servidor. Quem tinha o poder de conceder o descanso ao longo dos anos era ela — e a omissão em concedê-lo não apaga o direito ao terço.

O crivo

Quatro elementos, e todos ao mesmo tempo

Faltando qualquer um deles, o caso não se sustenta. Cada elemento se demonstra por documento, não por lembrança.

  1. Houve vínculo com a Administração

    Cargo efetivo ou cargo em comissão, no Município ou em autarquia municipal. Contrato com empresa prestadora de serviço é outra relação, e a discussão muda de figura e de foro.

    ProvaPortaria de nomeação, contracheques, certidão de tempo de serviço

  2. Períodos aquisitivos completos

    O direito às férias se adquire depois de doze meses trabalhados, como diz a primeira parte da tese do Tema 30 do Supremo. Cada ano completo de vínculo é um período aquisitivo.

    ProvaPortarias de nomeação e de exoneração, ou o ato de aposentadoria

  3. As férias não foram gozadas

    Não há, naquele período, ato de concessão de férias, escala publicada nem afastamento registrado. O servidor permaneceu em serviço o ano inteiro.

    ProvaFicha financeira, atos de concessão de férias, registros de frequência

  4. O terço não foi pago

    Nos contracheques daquele período aquisitivo não aparece lançamento a título de terço ou de 1/3 de férias. Férias proporcionais pagas na saída são coisa diversa.

    ProvaContracheques mês a mês, ou a ficha financeira integral

O ponto que mais se perde

O relógio começa na saída, não no ano das férias

As dívidas da Fazenda Pública prescrevem em cinco anos, pelo art. 1º do Decreto nº 20.910/1932. O prazo não está em discussão; o que se discute é o seu termo inicial, que o próprio dispositivo fixa na data do ato ou fato de que se originar a pretensão.

A tese sustentada é a de que esse ato é o rompimento do vínculo, e não o fim de cada período aquisitivo. Enquanto o servidor estava em atividade, ele era titular do direito ao descanso, e não de um crédito em dinheiro — a Administração ainda podia cumprir a obrigação concedendo as férias. O Superior Tribunal de Justiça firmou esse raciocínio no Tema 516, julgado sob o rito dos repetitivos, e o próprio enunciado do Tema 635 do Supremo o pressupõe ao falar de quem não mais pode usufruir das férias.

  1. Cada ano trabalhado

    Um período aquisitivo se completa a cada doze meses de serviço. Segundo a tese, não é daqui que o prazo corre.

  2. Termo inicial — Tema 516 do STJ

    Exoneração ou aposentadoria

    A data do ato que rompe o vínculo. É quando a fruição se torna impossível e o direito ao descanso se converte em crédito.

  3. Cinco anos depois

    Esgotado o quinquênio do Decreto nº 20.910/1932, não há mais o que reclamar em juízo.

Sem rodeio quanto ao prazo

Convém dizer isto com todas as letras: este é o ponto controvertido da matéria, e ele pode ser decidido de outra forma. Há decisões que contam o prazo a partir do fim de cada período aquisitivo — e, nesse cenário, apenas os cinco últimos anos permanecem discutíveis. Quem deixou o serviço público há mais de cinco anos enfrenta o argumento mais difícil de todos.

Fundamento

De onde vem o direito discutido

Sem generalização e sem número redondo. Cada peça abaixo pode ser conferida na fonte por quem quiser conferir.

  • Constituição Federal

    Art. 7º, XVII, c/c art. 39, § 3º

    Assegura o gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal, e estende esse direito a quem ocupa cargo público.

  • STF

    Tema 30 — RE 570.908/RN

    O terço é devido depois de doze meses trabalhados, independentemente do gozo das férias; e a ausência de previsão legal não restringe o direito do exonerado de cargo em comissão que não usufruiu.

  • STF

    Tema 635 — ARE 721.001/RJ

    Assegura a conversão em indenização das férias não gozadas por quem não mais pode usufruí-las, pela vedação ao enriquecimento sem causa da Administração.

  • STJ

    Tema 516 — REsp 1.254.456/PE

    Julgado sob o rito dos recursos repetitivos: o prazo prescricional de cinco anos corre da data em que o vínculo funcional se rompe.

  • Decreto nº 20.910/1932

    Art. 1º

    As dívidas da Fazenda Pública, qualquer que seja a sua natureza, prescrevem em cinco anos, contados da data do ato ou fato de que se originarem.

  • Código Civil

    Art. 189

    A pretensão nasce quando o direito é violado. É a regra de que decorre toda a discussão sobre o termo inicial do prazo.

  • Código de Processo Civil

    Art. 373, II e § 1º

    Provar o pagamento é ônus de quem alega ter pago, e o juiz pode redistribuir esse ônus quando a prova está em poder exclusivo de uma das partes.

  • Emenda Constitucional nº 113/2021

    Art. 3º

    Nas condenações da Fazenda Pública incide, uma única vez e até o efetivo pagamento, a taxa Selic acumulada mensalmente, que já engloba correção monetária e juros.

Uma observação sobre a norma local: o Estatuto do Servidor Público do Município de Imperatriz prevê, no art. 70, indenização de férias e de décimo terceiro na extinção do vínculo, calculada sobre a média da remuneração dos últimos doze meses. Ainda que a lei municipal fosse omissa ou restritiva, o direito discutido nasce da Constituição e das teses vinculantes dos Temas 30 e 635 do Supremo — e é delas que a orientação parte.

Em vídeo

O terço de férias do servidor, em menos de dois minutos

A mesma explicação desta página, falada: o que diz a Constituição, o que fixaram os Temas 30 e 635 do Supremo, e por que o prazo é o ponto mais sensível de todos.

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Conteúdo informativo. Não constitui consulta jurídica nem promessa de resultado.

Antes de tudo

Três confusões que enfraquecem o pedido

  • Quem ocupa cargo em comissão não tem direito a férias.

    Tem. O art. 39, § 3º, da Constituição estende ao ocupante de cargo público o inciso XVII do art. 7º, sem distinguir entre efetivo e comissionado — e a segunda parte da tese do Tema 30 do Supremo trata exatamente do exonerado de cargo em comissão que não usufruiu férias.

  • Se eu não tirei as férias no ano certo, o direito caducou.

    Não é o que dizem os dois temas. O Tema 30 assegura o terço ainda que as férias não tenham sido gozadas; o Tema 635 assegura a conversão em indenização a quem não mais pode usufruí-las. O que se discute não é a perda do direito, e sim o prazo para reclamá-lo.

  • Basta lembrar dos anos em que não tirei férias.

    Não basta. Quem decide são os contracheques e a ficha financeira: é neles que se vê em quais competências houve — ou não houve — lançamento a título de terço de férias. Alegação sem documento é uma das causas mais comuns de procedência apenas parcial.

Triagem

Cinco documentos respondem à pergunta

São eles que dizem se algum período ficou mesmo em aberto. Vale reuni-los antes de qualquer conversa — inclusive para descobrir sozinho que não há o que discutir.

  1. Contracheques do período trabalhado

    Mostram, mês a mês, se houve lançamento a título de terço ou de 1/3 de férias, e em quais competências. É o documento central.

  2. Portaria de nomeação e portaria de exoneração

    Delimitam o vínculo e fixam a data que, pela tese do Tema 516, inicia a contagem do prazo. Em caso de aposentadoria, o ato correspondente.

  3. Ficha financeira, se você tiver cópia

    Reúne num só documento tudo o que foi pago, ano a ano. Costuma estar em poder exclusivo do Município — e a seção seguinte explica como pedi-la.

  4. Registro das férias efetivamente gozadas

    Portarias de concessão, escalas, avisos de férias ou registros de frequência. É o que separa o período em aberto daquele já usufruído.

  5. Contracheques dos últimos doze meses de vínculo

    A norma municipal manda calcular a indenização pela média da remuneração desse período. Sem eles, não há base de cálculo documentada.

Por segurança, não envie senhas, códigos de autenticação, senha do Gov.br ou do portal do servidor, nem número completo de cartão. Nenhum desses dados é necessário para uma análise inicial.

Antes do judicial

O documento decisivo está com o Município

A ficha financeira integral — o registro de tudo o que foi pago, ano a ano — fica em poder do órgão de pessoal do Município. Qualquer servidor ou ex-servidor pode requerê-la administrativamente, em seu próprio nome, sem advogado e sem processo. É pedido de certidão sobre dados próprios, amparado pelo art. 5º, incisos XXXIII e XXXIV, alínea "b", da Constituição.

Vale pedir, no mesmo requerimento, a certidão dos períodos de férias concedidos e as portarias de nomeação e de exoneração. Com esses papéis em mãos, a resposta à pergunta desta página costuma aparecer sozinha — antes de qualquer conversa com advogado.

Dois pontos de atenção

  • Em juízo, provar o pagamento é ônus de quem pagou: o art. 373, inciso II, do Código de Processo Civil atribui ao réu a prova do fato extintivo do direito.
  • O § 1º do mesmo artigo permite ao juiz redistribuir esse ônus quando a prova está em poder exclusivo de uma das partes — que é o caso da ficha financeira.

Franqueza

Quando não há o que discutir

Nem todo vínculo guarda um período em aberto. Nestas quatro situações, o cenário é desfavorável — e é melhor saber disso agora do que depois.

  • A saída do serviço público ocorreu há mais de cinco anos. Nessa hipótese, mesmo pela contagem mais favorável ao servidor, o prazo do Decreto nº 20.910/1932 já se esgotou.

  • Os contracheques mostram lançamento de terço de férias em todos os períodos aquisitivos. Pago o terço, não há o que indenizar.

  • As férias foram efetivamente gozadas, e há registro disso — portaria, escala ou aviso. O que se discute aqui é o período que não foi gozado nem pago.

  • O vínculo não era com a Administração municipal, e sim com empresa contratada por ela. Nesse caso a relação é regida pela CLT, e a discussão é outra, perante outra Justiça.

Verificação

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Responda algumas perguntas simples. Esta verificação não substitui uma análise jurídica, e as respostas não são gravadas nem enviadas.

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Análise individualizada

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Luiz Carlos Cezar

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O conteúdo desta página possui caráter informativo e educacional e não constitui, isoladamente, consulta, parecer jurídico ou promessa de resultado. Cada situação depende da análise de suas circunstâncias e documentos específicos.